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setembro 01, 2010

"de cor"

Tem coisas que a gente aprende. Outras a gente decora. Guarda por repetição, quase sem assimilar. São tipos de conhecimento, que muitos especialistas já classificaram em categorias e tipologias. E que habitam, terminologicamente, nosso tal universo cognitivo.

Eu confesso sem qualquer pretensão: sempre fui de boa memória. Para números, datas, dados. Uma vez me perguntaram por que não havia cursado algo que tivesse a ver com isso. Aliado ao meu relativo senso de organização - às vezes disfarçado de T.O.C (rsrs) - eu teria, com grandes possibilidades, certo sucesso.

Nesse momento da minha vida, rodeado de livros e papéis por todos os lados, ando sendo traído pelo pensamento. Muitas vezes. Ironia do destino. A memória me passa umas rasteiras, distraída que se encontra, em alguns momentos, com lembranças futuras, de coisas que não existem, mas que surgem para trazer certos assombros. Fico lembrando daquilo que a cabeça consegue criar, sem ter vivido. Ansiedade ou angústia, alguns diriam. Inimigas do bom raciocínio. Tenho certeza.

Nesses altos-e-baixos, tento me apegar aos momentos em que a lucidez brota melhor e uso a meu favor não apenas o que "aprendi decorando", mas o que "aprendi aprendendo". Aprendizado mais elaborado. Do tipo que não se rouba e que, no fundo, não se perde.

Na reta final de quatro anos (onde me encontro), mas ainda no começo de uma longa (espero) jornada científica, fico feliz quando percebo, nas pequenas coisas, que muito eu sei porque assim sou.

Com todos os desenganos e dissabores, temperados por uma boa dose de auto-sabotagem (que também, dizem, é parte - não obrigatória - do processo), o que para mim ficou e deve ficar - do conhecimento objetivo e pessoal - não foge à lógica da qual sou partidário mais que etimológico: "know by heart" ou "savoir par coeur". Em bom português: saber pelo coração.

agosto 17, 2010

mal-estar, bem-estar

Eu já disse aqui uma vez da minha velha mania de "descansar carregando pedra". Dar uma certa "utilidade" para o descanso, por contraditório que isso pareça. No meu caso atual, mais contraditório ainda. Pois ando lendo e escrevendo sobre qualidade de vida, e descansar devia ser regra sagrada.

Enfim, fato é que havia muito tempo também que eu não me sentia em condições de "descanso trabalhoso". Talvez, justamente porque tanto o trabalho quanto a pausa estavam meio incompletos por uma série de motivos...
Compartilho abaixo uma citação famosa que está no livro que habita no momento meu falso criado-mudo e que, entre outras coisas, tem me ajudado a descansar feliz-pensando.

"Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes não só à sexualidade humana, mas à sua agressividade, podemos entender melhor por que é tão difícil para o homem ser feliz na civilização. De fato, o homem primitivo estava em situação vantajosa por não conhecer restrições ao instinto. Em contraposição a isso, sua perspectiva de usufruir desta felicidade por qualquer intervalo maior de tempo era diminuta. O homem civilizado trocou uma parcela das suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança".

do FREUD, Sigmund. Mal estar na civilização em GIANNETTI, Eduardo. Felicidade: diálogo sobre o bem-estar na civilização.

julho 19, 2010

corrida maluca

Desde a semana passada ando num circuito interessante: eu corro atrás de palavras e elas correm atrás de mim. Só que a gente se desencontra. Demais. Eu corro a elas pela escrita; e elas correm a mim pelos livros.
Tenho que escrever muito, bastante. Mas começo a escrever e em vez de ganhar palavras minhas, sinto a necessidade das palavras dos outros. Então parto para as leituras. Leio, leio, leio e me perco. Leituras fragmentadas que colhem muito mais que fragmentos. O que fazer?
Olho para a tela e ela continua branca. Olho para a estante e os livros parecem que vão despencar sobre mim. Famintos pelos meus olhos. A minha corrida, pelo visto, no final das contas, será contra o tempo...

Eu e as palavras: assim se faz , também, uma tese.

julho 07, 2010

caminhar

Hoje meus pais completam 31 anos de casados. Fica a eles uma homenagem bem contextualizada com meu dia-a-dia.

A Dois*
Carpinejar

Ao andar contigo,
eu ria à toa,
a música já tinha
nossa respiração.
Como uma cordilheira,
a tempestade
sobrevoava
a esponja do verde,
sem derramar relâmpagos.
Ao andar contigo,
eu me invejava.





















casal caminha rumo a Plaza Mayor em Madrid (agosto de 2009).

* publicado na seção "Outras Palavras" da revista Vida Simples de outubro de 2003.

julho 06, 2010

a perceber

Distração do Rio *
Carpinejar

Não percebemos.
O rio se curva
a beber a árvore
e árvore se cura
com a turbulência do rio.
Não percebemos.
A terra tem unhas
para nos cavar.
Não percebemos.
A lâmpada soluça
o burburinho dos insetos.
Não percebemos.
O musgo converte
a pedra em pão.
Não percebemos.
As uvas ressucitaram
antes dos homens.
Estamos atolados
com o que não existe.

* publicado na seção "Outras Palavras" da revista Vida Simples de agosto de 2003.