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fevereiro 11, 2010

hoy

Hoje, depois de conversarmos sobre os índices (sumários) de nossas teses, a Belén me veio com uma frase que continua aqui na minha cabeça. Ao me perguntar sobre minha introdução, objeto, metodologia etc, e ouvir que eu gosto de colocar essas coisas no trabalho de maneira não tão explícita, ela lembrou o Pablo Picasso: "A los doce años sabía dibujar como Rafael, pero necesité toda una vida para aprender a pintar como un niño". E o que ela queria dizer com a lembrança? Mais ou menos o seguinte:  "Fred, deixe para ser pouco explícito só quando, de verdade, você já for 'gente grande'. Aí sim você poderá 'desenhar' a vontade..." (tá complexo isso!...)

fevereiro 09, 2010

desde o sentimento

Se me perguntassem na minha volta ao Brasil por que motivo o mascote da Copa do Mundo de Futebol disputada em 1982 na Espanha era o "Naranjito", eu talvez não soubesse responder. Não saberia até a última semana. Agora sei. Inesperadamente raciocinei sobre.
Em Sevilla, Córdoba, Málaga e Granada - cidades andaluzas que conheci neste começo de fevereiro -, as laranjas são onipresentes. Laranjeiras carregadas de fruto perfilam os passeios que margeiam as ruas. Há laranjas no chão. Há laranjas no ar. Há laranjas que dão boas-vindas aos turistas em muitos - ou quase todos - pontos e locais históricos. Respira-se um perfume que, como bem gosto, dá um ótimo toque sinestésico à experiência incrível e inesquecível de conhecer tais lugares. 
E é isso. Pois a Andaluzia é uma viagem de sensações. De ver, de cheirar, de ouvir, de tocar, de saborear. Tudo misturado na disposição ofertante, disponível a quem saiba capturar o que se oferece desde vários sentires.
"Desde vários", aliás, é algo muito espanhol. Não a variedade em si, que se tem sempre por onde se vai, em qualquer lugar. Mas o uso gramatical do "desde". Diferente do nosso, do português. Com mais conotações. Mais que temporal ou físico. Marco para outras situações. Um outro "a partir de".
E foi lá em Málaga, na sexta-feira passada, que recebi um email de Belo Horizonte com os seguintes dizeres: "Fred, sua ligação com a Espanha é de longa data. Um beijo, Mamãe". Havia uma imagem em anexo. Acompanhando as poucas palavras que muito diziam, uma foto daquelas que atravessa linhas de significado. Fazendo convergir num só foco, desde o sentimento, um tanto de coisa.
Nessas coincidências que não se explica, estava lá eu, em agosto de 1982, exatos 27 anos antes de chegar em território hispânico, em agosto de 2009. Na roupa, a Espanha. Na roupa, a laranja. Em tudo, tudo. Desde a lembrança materna e familiar, desde mim. Desde a Andaluzia. Desde os significados...
Talvez eu diga que essas coisas só acontecem comigo porque eu as enxergo dessa maneira. E no fundo é isso. O "só acontecer com a gente" tem muito a ver com o "ver o tudo". Pois se acontece, damos sentido. Faço isso, pois. Muita gente faz.
Nos meus sentidos de fé, ando cada dia mais agradecendo ao meu "anjo-da-guarda". Que tem "trabalhado" muito bem, creio. Numa crescente, acho. Eu comentei sobre isso com o Reges, meu companheiro de viagem pelo sul espanhol. Falei com ele, num momento "cabeça", dessa "proteção que nos acompanha", dos "privilégios", das convergências e de como estas se formam "desde" coisas que estão espalhadas e são partilhadas.
Hoje faz seis meses que cheguei aqui. Agora falta menos de um para fechar o ciclo. Na tessitura quase completa, "llena" de incompletudes, não cansarei de dizer a muitos, "una vez más": obrigado!


















  Rua Lavras e Naranjito. Belo Horizonte, Brasil, agosto de 1982.

janeiro 26, 2010

citação na manga

Num livro que ganhei lá de Portugal em outubro ["No teu deserto", de Miguel Sousa Tavares], há uma frase que me chamou a atenção quando li: "[...] nunca me tinha imaginado na pele do próprio Estado português". Na história, ela foi dita pelo personagem principal em uma situação de resolução diplomática que se passava no Ministério da Informação argelino.
Desde que me deparei com esses ditos (tendo assinalado-os no texto), eu pensei: será que vou me sentir assim aqui? De posse da auto-pergunta, resolvi guardar essa citação "na manga", esperando o melhor dia para voltar a ela. E isso aconteceu nesta terça-feira.
Sou bolsista SWE do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Brasil). Na Espanha, com o apoio do governo brasileiro, desenvolvo parte dos meus estudos de doutorado (como a maioria das pessoas que lê este blog está cansada de saber...). Isso me põe em um contexto "público" de várias maneiras. Pela minha obrigação com o cumprimento das atividades aqui previstas, pela necessidade de "prestar contas" ao Governo e à minha agência de fomento (e ao povo de certa forma...), pelo meu compromisso com o "desenvolvimento científico"..., pelo meu compromisso pessoal, pela responsabilidade social etc. Muita coisa.
E foi considerando tudo isso, que hoje me vi "na pele do Estado brasileiro". Não por mim, exatamente. Pois - ainda bem - permaneço bem feliz no auge da minha insignificância. Mas pela situação que vivi.
Depois de meses construindo uma rede de contatos e fazendo arranjos de datas e "tals", tive uma "cita" (reunião) com um professor que é considerado um dos "pais" da disciplina (do campo de estudos) que vim investigar em território espanhol. Uma conversa ótima, receptiva, que durou cerca de 30 minutos e que fez valer um tanto de coisa. Não só por informações preciosas que obtive, derivadas de insights a partir de diálogos soltos, mas por ter me colocado, curiosamente, numa situação política.
Durante o encontro deixei de ser o "chico brasileño" de sempre, para ser alguém "ilusionado" (expressão que utilizou o professor catedrático que me recebeu) com o jornalismo e que pode fazer ótimas pontes "entre a academia espanhola e a brasileira" (isso tem a ver com coisas bem específicas que conversamos, assuntos teóricos mesmo, que vou pular aqui pra não me alongar). É claro que nessa fala predomina muito um discurso de "boa vizinhança", mas ela me fez lembrar na hora da citação do autor português referida acima.
Na experiência do período de estágio no exterior, há dias que parecem que serão profundamente improdutivos, como estava sendo o meu até então. Só que de repente vem algo súbito, às vezes uma só idéia, uma só frase, e tudo muda.
E foi graças a esse encontro, muito buscado, que eu digo ao CNPq (que não é uma pessoa e que tampouco lerá essas linhas) que as coisas aqui valem a pena. Que elas acontecem de maneira difusa e que precisam de tempo. E que eu, "seu bolsista", de alguma forma "na pele do Estado brasileiro" em Madrid, sou muito grato e espero fazer valer o investimento que está sendo feito na minha investigação.
Quando eu expliquei ao professor sobre a minha bolsa e sobre essas políticas de incentivo científico no Brasil e percebi sua cara de "espanto" (talvez), recordei-me de uma frase que a Vírginia Fonseca, professora da UFRGS, me disse em setembro lá no meio da praça central de Braga, em Portugal (de novo os lusos...): "nós não viemos aqui só para ouví-los, mas para sermos ouvidos". Menos que uma colonização às avessas, isso tem a ver, de alguma forma, com a personificação dupla a que estamos sujeitos em situações como a minha: eu sou a minha pesquisa e nós no (e pelo) Brasil fazemos pesquisa.


Madri, 26 de janeiro de 2010.
Madrid, 26 de enero de 2010.

janeiro 20, 2010

eu obedeço

Hoje a minha orientadora daqui me disse: "Não vai mais mudar o recorte da sua pesquisa. Isso é uma ordem!".
Então tá então. ¡Vale!

janeiro 16, 2010

a la orilla del corpus


O Rio*
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.
(Manuel Bandeira)


* retirado da página 82 da revista Vida Simples de novembro de 2004.

janeiro 15, 2010

processo

Percorro pedaços de falas em folhas. Possuem eles a mesma desordem de páginas que caem de árvores e se espalham pelo chão. A lógica é essa, contra. Algo meio outonal. Não importa que estejamos no inverno.
Segue a escrita lutando com conteúdos que dela não são. Ventos.

janeiro 14, 2010

em terra firme

Fazia dias eu sentia: estava sendo seguido. Pelas ruas, até entrar em casa. Pela internet, na biblioteca. Eu, vez em quando, apressava o passo. Sem perceber. Fugia? Olhava pra trás e não via nada. Não via ninguém. Cadê? Num vejo. Num consigo descobrir. Será? Tava ficando doido mesmo. Pensando demais. Mas pensamento invertido. Focado. Só que involuntário. Uai, mas então tava certo... Por quê a vigilância? Ah, já sei. Monitoramento. É, pode ser. Será?
Na dúvida, resolvi ser estratégico. Fiz o roteiro de sempre, sabendo que o acompanhamento viria. Companhia. Incômoda? A ver. Entrei no campus. Corredor, bebedouro, banheiro do primeiro andar. Fechei a porta. Não teve jeito. Sem escapatória. Cerrado. Vi pelo espelho. Reconheci. Não era perseguição. Era reencontro. Fred com Fred. Corri pro alto de mim mesmo, respirei fundo e gritei: "Tese à vista!"

janeiro 11, 2010

citação para el lunes

Das leituras da biblioteca para o blog do Grupo de Pesquisa. Era uma epígrafe do Franz Kafka. Vai lá: GPJor.

janeiro 08, 2010

hay nieve

Ontem estudei. Tentei. Relutei. Comecei. Pensei. Revisei. Enviei. Muitos "eis", quase "ois". Serviram de "olá". "Ei, Fred, o tempo urge, meu caro...". Tempo de trabalho com meteorologia propositiva de ficar quieto. Enquanto eu escrevia, neve, muita neve caia lá fora. Ela ainda lembrou: "igual nos filmes que a gente via". Um dia, no futuro, vou me lembrar disso.

janeiro 07, 2010

diminutivo com superlativo para chegar no "termo do meio" (ou no meio-termo)

tesinha + tesão = tese.
no final das contas, não importa a quantidade de páginas, de empolgação ou desejo.
assim se dimensiona - em equilíbrio - um doutorado...

dezembro 22, 2009

Canárias: conclusões

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro evento científico que fui fora dos domínios da UFMG, quando ainda estava na graduação. Fomos em um ônibus da universidade (caindo aos pedaços) para São João da Barra, no litoral fluminense, para o SIPEC 2002. Eu fui apresentar um trabalho da minha iniciação científica. Foi uma viagem ótima. Não tanto pelo propósito em si, mas porque marcou muita coisa naquela época. Na volta, chegando em BH, eu disse pro Márcio Simeone e pro Paulo Bernardo (dois professores que foram com a gente, o segundo, meu orientador) que eu "não imaginava que ia tão longe com aquela pesquisa". E o Márcio retrucou algo mais ou menos assim: "você não imagina quão longe ainda vai".
Na volta do Congresso nas Canárias isso veio à minha cabeça, no avião. Eu realmente fui longe. Minha pesquisa, realmente, me levou a outros "sítios". Inimagináveis para mim. Um lugar daqueles que mais que querer mostrar às pessoas, eu tive vontade de levá-las. Obrigá-las a ir...
Voltei dessa viagem com um sentimento de muitos pontos encaixados, muitos balanços traçados. Para o ano de 2009, de 2010, para as coisas que me trouxeram aqui, para tudo que daqui, também, tenho que levar. Há muito o que se fazer. Ainda. Mas já é possível olhar pra trás.
A experiência do sanduíche de doutorado te oferece roteiros prontos e outros inesperados. E, antes de cumprí-los, há que se inteirar deles.
Conhecer a fundo o país onde você está pode ser um destes roteiros. Não o fiz ainda, devo dizer. Todavía, decobri um pouco mais a importância disso. Quando a gente chega ou quando a gente está para vir, muito se escuta sobre o tamanho reduzido da Europa, a possibilidade de se conhecer muitos países em pouco tempo. Mas a verdade é que, além de não estar aqui para fazer turismo (não que também eu não o faça), além de tudo ter um custo (em euros!), não sei se um dia serei de novo "morador" da Espanha. O que me faz ter ainda mais "ganas" de querer mergulhar no que este país tem a me oferecer. Aproveitar a língua, os hábitos, as coisas que no dia-a-dia vão me povoando. Lema para o pouco tempo que resta, quando e como der.
A gente também escuta muito, antes de vir pra cá, que devemos saber transformar essa oportunidade no exterior não apenas em algo acadêmico.. Realizar uma opção. Tempo de você mesmo para você. E isso, mesmo oferecendo (em alguns momentos) obstáculos e limites, é algo que vale - e muito - a pena. Não me arrependo.



dezembro 15, 2009

as primeiras vezes a gente nunca esquece

Entre novembro e dezembro fiz duas apresentações aqui na Espanha. Minhas primeiras falas em espanhol num auditório.

A primeira, nas I Jornadas de Diseño Gráfico ocorridas lá na minha Universidade, a Rey Juan Carlos. Fui "de penetra", no meio de um tanto de palestrantes "do mercado", falar da "maquetación gráfica" da revista que eu estudo. Como me disse meu amigo Ricardo, "só eu mesmo para inventar certas modas"... Mas, como diria meu ex-orientador e também amigo, Paulo Bernardo, eu falando de design é uma mostra de que eu não "nego a raça"; ou, no mínimo, a "paternidade" acadêmica.














Durante a apresentação, apesar do nervosismo com o espanhol (na eminência de tentar tratar o auditório por "vosotros" - para mim a conjugação verbal mais difícil...), ainda consegui fazer umas brincadeiras linguísticas com um jogo de palavras. Houve risadas. Também, no final, dois professores que eu não conhecia me procuraram. Um para dizer que queria conversar comigo sobre a revista, que tinha gostado muito da minha perspectiva e tals... O outro para me cobrar uma música. Pois uma das capas de Vida Simples que eu mostrei foi a de novembro, cujo título da matéria principal diz "É melhor ser alegre que ser triste"; e na minha fala, bem brasileiro que sou, fiz menção à Bossa Nova... hehehe (O professor que cobrou a canção, o organizador do evento, me disse que a "minha" revista e a minha apresentação combinariam bem com uma trilha sonora. Prometi a ele, na próxima, um "Samba da Benção").








A segunda vez foi semana passada, nas Ilhas Canárias, em La Laguna, no I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. Vou ainda contar dessa viagem aqui. Sobre minha participação, posso dizer que eu estava bem mais tranquilo que da primeira vez. Talvez porque, diferentemente da minha "estréia", eu já não era mais tão assim, digamos, pagão... Abençoado estava.














Em fevereiro, ainda apresento com meu amigo Reges Schwaab mais um trabalho aqui na Espanha. Será no Congresso da Associação Espanhola de Pesquisadores em Comunicação.

novembro 25, 2009

plano cartesiano

Para as linhas do gráfico que representa a minha passagem investigativa por aqui, um complemento que não sei se parte das abcissas ou das ordenadas. De qualquer forma, é eixo.

"A única atitude intelectual digna de uma criatura superior é a de uma calma e fria compaixão por tudo quanto não é ele próprio. Não que essa atitude tenha o mínimo cunho de justa e verdadeira; mas é tão invejável que é preciso tê-la". (Fernando Pessoa)

novembro 19, 2009

comentário

Na primeira reunião de orientação aqui na Espanha, eu presenteei minha orientadora com dois "regalos". Um "profissional" (um livro) e outro "de amigo" (um CD*). Outro dia, após longa data, ela comentou comigo do disco. Assim, meio do nada. Disse que não conhecia, que não era o tipo de música que ela escutava, mas que todo o CD é muito intenso. Que eu tinha bom gosto, pela "força" das canções. Intensidade me persegue, tão vendo?



* o CD: "Dentro do Mar tem Rio" (Maria Bethânia - Ao Vivo)
p.s.: da Bethânia, nem todos gostam; do Álvaro de Campos (em Pessoa...), talvez.

novembro 18, 2009

traído pelo objeto

Se eu fosse só leitor e não investigador, certamente minha vida seria bem mais simples. O PauloB adorou a frase.

novembro 04, 2009

Islas Canárias

Essa semana comecei a tradução para o espanhol de um texto que vou apresentar em um Congresso em dezembro, nas Ilhas Canárias. Uma coisa interessante deste processo é ter de pensar meus escritos em outra língua. Ao trabalhar com um vocabulário bem "menos vasto" que o do meu "academês" brasileiro, acabo me dando conta de que há muita coisa confusa no meu português e na minha pesquisa...

outubro 26, 2009

traduções

Um dos desafios de fazer estágio de doutorado em um país de língua estangeira é ter que traduzir suas próprias produções. Toma um tempo... Estou eu aqui, desde sábado, às voltas com traduções de textos do português para o espanhol. Eu, um dicionário, uma gramática, o Google... Aí, quando tudo fica muito chato, vou escutando música, pensando em outras coisas... No que devia e no que não devia...

Aproveitando, uma citação - traduzida - para o dia:
"Mesmo o silêncio mais profundo constitui um fundo sonoro como qualquer outro, no qual se destacam com solenidade pouco habitual o ruído do meu fôlego e o do meu coração, como se o rumor contínuo que impregna até nossos sonhos se confundisse com o sentimento de nossa própria duração".
In: SCHAEFFER, Pierre. Tratado de los objetos musicales, pp. 62-63 (traduzido pelo meu ex-colega de graduação, o Pedro Aspahan, em sua dissertação de Mestrado, "Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson", defendida ano passado lá na UFMG).

outubro 23, 2009

investigar

"Es tarea de la ciencia reducir la expresión inarticulada de nuestros sentimientos individuales a un universo de discurso común y crear un mundo objetivo e inteligible a partir de nuestras experiencias privadas" (Robert E. Park).

setembro 27, 2009

E tem trabalho? Tem sim senhor!









Congresso Internacional - Comunicação, Cognição e Media
CICOM 2009 - Braga, Portugal - 23 a 25 de setembro