outubro 31, 2009

Segóvia, sábado, 31 de outubro de 2009

"A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar" (Miguel Sousa Tavares. No teu Deserto. pág. 51).




outubro 30, 2009

outro dia, uma amiga me escreveu perguntando como estava o meu auto-exílio europeu...

...vai lendo, eu diria.

 Conhecer-me
(Álvaro de Campos)

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

mais música

Para hoje, uma super "perla trash"... Basura, da basura... Lixo, do lixo... hehehe.
Ou, como se diria em espanhol (aprendí "hace poco tiempo"): una canción "muy, muy hortera"*:


(Luis Miguel - Cuando calienta el sol)

* hortera: "que es de mal gusto y vulgar; que pretende ser elegante y no lo es". Em resumo: Brega!

outubro 29, 2009

preferidas

Tenho canções preferidas. Minhas. Que são, na verdade, respostas a uma pergunta que me fiz uma vez, depois de escutar a mesma num "programete" de tevê: "qual é a trilha sonora da sua vida?".
Em verdade, desde aquele momento, decidi que o meu disco seria volume duplo. Um para as canções dos momentos que trago comigo e outro para as canções que trago comigo e as levo para os meus momentos.
Deste segundo disco, há uma que, acredito, deve ser a faixa de abertura das músicas internacionais. A conheço em algumas versões. E a prefiro na voz da Janis Joplin.

Domingo passado, já passava da uma da manhã, e ela ainda estava no quarto trabalhando. Fazendo coisas para a segunda-feira. Eu, na sala, lendo e com o meu iPod no ouvido.
E eis que mais uma vez - eu e as minhas coincidências - tive outro encontro comigo e com "minha" música. Tudo bem que o cantor da vez era outro:
"Eu não consegui, ou não quis, adormecer tão cedo. Liguei o meu walkman e fiquei a ouvir um lado inteiro de um disco do Bob Dylan. Adormeci com ele a perguntar-me ao ouvido: How many roads must a man walk down/ Before you call him a man?/ Yes, and how many seas must a white dove sail/ Before she sleeps in the sand? E, mesmo antes de fechar de vez os olhos e cair na incosciência, respondi-lhe: I don't know the answer, my friend" (Miguel Sousa Tavares. No teu deserto. pág. 48).

E foi também, de olhos fechados, não sei quando depois, que ganhei um beijo na testa e escutei meu nome. Fomos dormir. Outra resposta.

outubro 28, 2009

voyeur

Entrei no metrô. Estava cheio, demais. Não entendi. Três e quinze da tarde. Depois lembrei. Os espanhóis almoçam em hora diferente. E voltam para o trabalho também. "Mais depois" que a gente. Andei umas quantas estações de pé. Com meu livro na mão, à espera de uma brechinha para abrir e ler. O iPod ia fazendo suas vezes de companhia. Mas eu estava mesmo era querendo seguir com minha leitura literária.

Depois de um tempo, comecei a ler de pé. O vagão do trem mais vazio, com espaço para passar as páginas e me segurar ao mesmo tempo.
No meio do caminho sentei. Ufa! Ainda restavam mais 12 estações. O assento já era mais que bem-vindo. Sentado eu podia não só ler, mas "apuntar" minha leitura (agora tenho a mania de escrever, à lapis, sobre o que estou lendo).

Pois bem. Acomodado, ditei um novo ritmo para os olhos e fui percorrendo a mancha tipográfica desnuda à minha frente. Feliz em poder saborear, "por inteiro", as letras portuguesas que se davam a ver (era um livro que ganhei de aniversário, vindo lá de Portugal).

Só que de repente, num daqueles instantes, entre virar uma página e olhar ao redor de mim, descubro, ao meu lado direito, uma outra mancha. Era um livro, com a coloração de papel igual a do meu e com uma tipografia que lembrava a minha.

Ampliei o momento viradouro e olhei discretamente aquelas páginas que se ofereciam. Creio que só eu sabia que o estava fazendo. Assim pensei durante todo o tempo.
Fui "mirando", não só por curiosidade, mas por deleite, o livro alheio. Naturalmente o fiz.

Quem estava lendo era uma moça, rubia. Lia com voracidade aquele volume. Bem maior do que aquele que eu portava. E em espanhol.

Por estar sentada à minha direita, as páginas pares de seu livro se escondiam. Eu podia ver apenas as ímpares.

Na primeira vez que olhei, veio ao meu encontro uma frase:
"Se volvió hacia mí: los ojos le brillaban y tenía la sonrisa más dulce que si pudiera imaginar".
Puxa! Continuei...
Não sabia que livro era. E tampouco isso importava.
Aquele papel encarnado de tipos, me convidava a correr sua carne.
Segui então, de soslaio.

Vez em quando olhava para meu livro. Lia um pouco, de pretexto. E me divertia ainda mais - também - com a minha leitura.

Segunda frase captada no balanço do trem e no movimento das mãos ao lado:
¿Qué podría hacer yo?
E terceira:
¿Me ayudas?
A essas alturas, o verso da capa do meu livro já ganhava a minha letra anotando tudo o que eu lia "alheiamente".
Ela, a moça loira, acabara de virar a página.

Saímos da 201 e enquanto ela lia a 202, eu já corria os olhos, lepidamente, pela 203. Nova nudez a buscar e a se oferecer. Parecia que aquele "corpo" conversava comigo. Ou mais. E então me disse: "Su sonrisa se convirtió en una frígida seriedad". Eu, sorrindo? Imagina...

Aliás, quem sorria? Que personagem? Eu não sabia.
Só que o personagem já era eu. Da minha história. Conversando com o (um) livro.
Ao alcançar a página 205, veio uma nova pergunta: 
"- Oye; hazme un favor, ¿quieres?"

Quando eu já me preparava para contestar, a dona-leitora ficou de pé e começou a preparar sua saída do trem. Tive tempo apenas de ver uma lasquinha da capa do livro, ainda aberto, consumido que estava por quem, também, o lia.
Consegui ler, naquilo que julguei ser o nome do autor, a terminação "eux". Um francês, quem sabe, traduzido ao castellano.

Voltei então para o meu livro ("No teu deserto", de Miguel Sousa Tavares) e na página 75, meu "eu-líríco" quase gritando disse, já junto ao rodapé: 
"- Ah, até que enfim! Estava a ver que nunca mais".

E eu respondi, sorrindo (muito e mais uma vez) para mim mesmo e para ele, buscando o francês que eu estava a (não) ler e aquele que eu pouco sei dizer:  je suis un voyeur.

para qualquer coisa


Estou Cansado
(Álvaro de Campos)

Estou cansado, é claro. 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma transparência lúcida 
Do entendimento retrospectivo... 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. 
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


outubro 27, 2009

outubro 26, 2009

traduções

Um dos desafios de fazer estágio de doutorado em um país de língua estangeira é ter que traduzir suas próprias produções. Toma um tempo... Estou eu aqui, desde sábado, às voltas com traduções de textos do português para o espanhol. Eu, um dicionário, uma gramática, o Google... Aí, quando tudo fica muito chato, vou escutando música, pensando em outras coisas... No que devia e no que não devia...

Aproveitando, uma citação - traduzida - para o dia:
"Mesmo o silêncio mais profundo constitui um fundo sonoro como qualquer outro, no qual se destacam com solenidade pouco habitual o ruído do meu fôlego e o do meu coração, como se o rumor contínuo que impregna até nossos sonhos se confundisse com o sentimento de nossa própria duração".
In: SCHAEFFER, Pierre. Tratado de los objetos musicales, pp. 62-63 (traduzido pelo meu ex-colega de graduação, o Pedro Aspahan, em sua dissertação de Mestrado, "Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson", defendida ano passado lá na UFMG).

pílulas

Rápidas notas informativas da semana que passou. Ou tudo o que se passou com o meu estrangeirismo:

- Fui revistado:
Entro eu, um rapaz que não corta o cabelo há quase três meses e barbudo (mas bem vestido, com cara de bom-moço - dizem - e portando gafas), no super. Procuro a carne para o almoço. Não acho. Desisto de comprar os tomates que já tinha separado. Deixo-os de volta na prateleira. Vou saindo pela porta e uma "mocinha" me chama. Na hora entendi. Fui logo abrindo os braços e passando pela constrangimento da revista. Tudo bem. Foi a mesma pessoa a quem eu perguntei onde era a balança para pesar os tomates. Vai ver meu sotaque me condenou. Ou então... sei lá. Entre revistas e revistas, prefiro a Vida Simples.

- Ao responder um email sobre a saída de quinta-feira, confirmando minha ida, eu disse: "Hola, este jueves me voy. Hasta, Fred". Recebi a resposta dizendo que ninguém tinha entendido nada. Fiquei sem entender também. Depois me explicaram. Se eu uso "me voy", é para dizer que estou de partida. Se digo "hasta", tenho que dizer "hasta alguma coisa...". Ou seja, ao confirmar, desconfirmei... hehehe. Em espanhol correto então: "Hola, este jueves voy. Hasta mañana, Fred".

- Descobri uma das minhas palavras preferidas em espanhol. Talvez a mais dileta, pela pronúncia e sentido: "volar".

- Sábado fomos ao cinema. Vimos um filme em inglês, com legenda em espanhol. Algo raro por aqui. Há uma lei nacional que faz com que os filmes dublados sejam maioria. Tanto é que uma "indústria" muito forte na Espanha, com investimentos pesados, é a da dublagem.
Assim, buscamos no jornal um cinema que fugia à regra e fomos ver, "em original", "Si la cosa funciona", o novo do Woody Allen. Foi meu primeiro cinema em Madrid. A primeira vez a gente nunca esquece...


















- Começou ontem, às 3hs de domingo (não descobri porque às 3hs), o horário-de-inverno. Agora são apenas 3 horas de diferença para o Brasil...

- Por fim, faltou contar do almoço caseiro de quarta-feira passada. Uma comida brasil-espanha: alúbias pintas (feijão!!!), arroz, ensalada, carne-moida de ternera e "un trozo de tortilla de patatas" (é um omelete em forma de torta, muito apreciado por aqui).
















Depois conto mais...

outubro 25, 2009

rio 2016

Nos últimos dias, a "violência carioca" foi manchete por aqui. En demasiado. E o "gancho jornalístico" dos jogos olímpicos de 2016 esteve muito presente. Vale a pena "mirar"...

Abaixo duas versões de dois periódicos cuja leitura semanal compensa:

Uma da revista "El Jueves":


(o rei da Espanha entre duas "brasileiras")

E outra da revista "El País Semanal":



compreender

"Formular una experiencia requiere alejarse de ella, verla como la vería otra persona, considerando qué puntos de contacto tiene con la vida del otro de tal forma que éste pueda apreciar su significado" (John Dewey)

outubro 24, 2009

Jueves

Nesta última quinta-feira, estive todo o dia no campus de Fuenlabrada. Cheguei cedo (nos padrões madrileños, mais ou menos às 11hs) e fui para a biblioteca. Tive aula de Jornalismo Especializado de 12h às 13h e depois fui ao "despacho" da minha orientadora. Ela não estava. Na verdade, fui me encontrar com a Belén e a Ana para combinarmos do almoço (da comida).
Chegando lá, fui convidado para um "break" regado a um vinho que a Belén tinha trazido de Málaga (uma delícia que tenho que buscar o nome para provar de novo) e uns bolinhos doces típicos, os "borrachuelos". Fomos ao gabinete de um outro professor e fizemos uma "confraternização" pré-almoço.
De lá, seguimos para o restaurante. Almoçamos nós três e mais quatro professores. Foi uma "comida" legal. Principalmente porque nessas oportunidades gastronômicas me sinto, de certa forma, bem recibido. Abraçado, sem querer, pelas pessoas. :-)
Nessa horas sou "um brasileiro que fala bem espanhol" (mas que não entende quase nada quando as pessoas daqui comem e falam ao mesmo tempo a mais ou menos 100 km/h...).
Depois da comida*, voltei para a faculdade conversando com o prof. Jesus, ligado a área de maquetación gráfica e organizador de um evento que vai ocorrer lá na Uni em novembro. Falamos sobre a graduação e a pós na Espanha e no Brasil. Expliquei da CAPES, CNPq, dos PPGs, do Doutorado etc. Ele se mostrou curioso e, acima de tudo, interessado. Foi jóia.
Passei o resto da tarde na biblioteca e à noite saí com minhas colegas doutorandas e alguns amigos seus da época da graduação. Voltei de carro com a Ana até Madrid (tive um déjà vu "São Léo-Porto Alegre") e "cenamos" num restaurante em um centro comercial junto à estação "Príncipe Pio" do Metrô. Foi divertido, no mínimo. Ao mesmo tempo que "boiei" em várias "passagens" da conversa (lembrando: comida + conversa em espanhol + velocidade = "eu-perdido"), aprendi novos vocabulários e conheci outras pessoas.
Depois, fiquei imaginando o inverso da situação. As espanholas junto comigo, num boteco qualquer em BH, escutando meus amigos mineiros-comedores-de-palavras, bebendo cerveja, comendo tira-gosto, falando rápido e "gerundiando". Dificil, hein?... 

* p.s.: o almoço: paella como "primer plato" - jueves é dia de paella em Madrid, sempre -, bacalao a la vizcaína de "según plato" y de postre un trozo de tarta de san marcos y un "café solo" - expressão usada para o nosso "cafézinho".

Pop Español

A Laura, uma chica muy maja que conheci, me "enseñó" dois novos grupos musicais espanhóis. Compartilho aqui mais um apuntamento do meu "cuaderno musical madrileño":

Amaral


Pereza

outubro 23, 2009

Fuenlabrada e seu microclima

Em meus tempos de UFMG (e também na Unisinos), havia a máxima de que no campus existia um "microclima". Estar no campus era, às vezes, vivenciar uma outra estação climática.
Aqui em Madrid, se pasa lo mismo...
No campus de Fuenlabrada, já dizem minhas amigas doutorandas Belén e Ana, tudo é sempre "aún más". Se está frio em Madrid, em Fuenlabrada está "aún más". Se está calor, em Fuenlabrada está "aún más"...
Ontem, para complementar os mais ou menos 10ºC de temperatura, havia um vento de deixar o minuano com inveja...
O outono chegou. E ainda tem o inverno...

Kant

Eu já tinha mencionado essa frase aqui. Mas hoje a descobri, entre aspas:
"A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor".
(Immanuel Kant)

investigar

"Es tarea de la ciencia reducir la expresión inarticulada de nuestros sentimientos individuales a un universo de discurso común y crear un mundo objetivo e inteligible a partir de nuestras experiencias privadas" (Robert E. Park).

im-possibilidades

Sempre tive mania de deixar a literatura de lado.
Desde o momento em que minha vida acadêmica começou "pra valer", a teoria vence fácil a poesia e a prosa. Mesmo com cobranças contrárias. Meu ex-orientador-de-mestrado-e-graduação e sempre amigo, por exemplo, nunca deixou de me perguntar: que livro está na cabeceira da sua cama?
Creio que agora, finalmente, isso está mudando. Foi preciso um outro amigo reforçar uma frase sua para eu me dar conta da necessidade de um equilibrio entre as minhas leituras. "É impossível fazer uma tese sem literatura". E, de fato, ele tem razão. Duplamente. Uma tese só é possível dentro da impossibilidade.

outubro 20, 2009

"a lo mejor"...

"Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer"
(João Guimarães Rosa)

escrever

Compartilhando ditos do meu amigo Carlos "Trovão" nos cumprimentos pelos meus cumpleaños:
"que quando a gente, ativamente, escreve, desse escrito a gente não é dono. A gente é resultante do que escreve. E é nesse sentido que eu recortei do Fernando Pessoa um trecho que, aqui, funcionará a meu favor. Diz ele: 'Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela / E oculta mão colora alguém em mim'.
Esse o meu parabéns! Felicidades imensas, caríssimo".

Obrigado!

poema de hoje, a caminho de uma reunião...

Quando menos se espera, o sentido vem e te acha. Era aquilo (ou é). Aí você entende e nomeia como escolha... Silêncio também se escolhe.
 
Silencio 
(Octavio Paz)

Así como del fondo de la música
brota una nota
que mientras vibra crece y se adelgaza
hasta que en otra música enmudece,
brota del fondo del silencio
otro silencio, aguda torre, espada,
y sube y crece y nos suspende
y mientras sube caen
recuerdos, esperanzas,
las pequeñas mentiras y las grandes,
y queremos gritar y en la garganta
se desvanece el grito:
desembocamos al silencio
en donde los silencios enmudecen.



outubro 19, 2009

Pop Latino do dia

Aos amantes da música latina (by Fred) e leitores deste blog, segue uma "doble" amostra de lo que he oído hoy.

En versión Maná:


En versión "Y tu mamá también"


A música: "Si no te hubieras ido".

El País Semanal

A revista deste domingo do jornal "El País" trouxe um especial sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Os textos estão ótimos e as fotos também. Para aqueles que curtem o suporte impresso, mas não terão acesso a ele, fica a dica virtual:

Fotos















"Para mí, el muro no era de piedra, sino de tiempo. Pasar de un lado a otro suponía adentrarse en un tiempo diferente".

“Había gente del Este por todas partes. Sus ropas no encajaban con Berlín Oeste, parecían muy gastadas en un decorado tan elegante”.
Textos

outubro 18, 2009

O Prado em Momentos

Ontem (domingo) aproveitamos mais uma vez os horários de visitação gratuita dos museus de Madrid e fomos ao Prado. Na sala 12 da "Planta 1" está o quadro "Las Meninas", do pintor espanhol Diego Velásquez. Talvez, a nossa "menina dos olhos", com o perdão do quase-trocadilho.
Diante da obra, cujas dimensões nos surpreenderam, três momentos. Um primeiro, de admiração, contemplação e busca de espaço em meio ao público. Um segundo, de escutar os turistas brasileiros falando alto, embasbacados e com comentários do tipo "aquela tem uma cara de brava" (será que também fa(i)zemos isso?). E um terceiro, mais distante, que foi a recordação de um texto que eu tinha lido sobre o quadro quando estava no 6º período da graduação, cursando uma disciplina optativa no departamento de Ciências Sociais. Segue um "trechinho" abaixo.


















Diego Velásquez, Las Meninas, 1656.

"Talvez haja, neste quadro de Velásquez, como que a representação da representação clássica e a definição do espaço que ela abre. Com efeito, ela intenta representar-se a si mesma em todos os seus elementos, com suas imagens, os olhares nos quais ela se oferece, os rostos que torna visíveis, os gestos que a fazem nascer. Mas aí, nessa dispersão que ela reúne e exibe em conjunto, por todas as partes um vazio essencial é imperiosamente indicado: o desaparecimento necessário daquilo que a funda - daquele a quem ela se assemelha e daquele a cujos olhos ela não passa de semelhança. Esse sujeito mesmo - que é o mesmo - foi elidido. E livre, enfim, dessa relação que a acorrentava, a representação pode se dar como pura representação."
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Martins Fontes, 2002, pp. 20-21

outubro 17, 2009

Frase de ontem na Uni

"O olhar estrangeiro nos coloca naturalmente na condição de investigadores" (do professor Miguel Chaia, da PUC-SP, durante banca de doutorado na URJC).

Ser alumno y extranjero. ¿Qué hacer? Sacar fotos.


Edifícios de laboratório e aulário. Onde as aulas e práticas acontecem.
URJC, Campus de Fuenlabrada.













Anoitecer em Fuenlabrada. Na última foto, "Edifício Departamental de la Facultad de Ciéncias de la Comunicación".
Quinta-feira, 15 de outubro de 2009.

becas y madres

Na semana que se passou, fui à Universidade quinta e sexta-feira.
Na quinta-feira, tive minha primeira aula de Jornalismo Especializado (estou de ouvinte, quase penetra, numa "asignatura" da graduação em Periodismo), assisti a uma palestra sobre um escritor espanhol oitocenista e as relações entre jornalismo e literatura na Espanha, e à tarde participei de uma reunião de pesquisa no grupo de investigação da minha orientadora. Tudo novidade.
Na sexta-feira, voltei ao campus para assistir um "Tribunal de Doctorado" (uma banca de doutorado). Era um trabalho que foi desenvolvido sob co-tutela entre a PUC de São Paulo e a minha Universidade aqui na Espanha, a Rey Juan Carlos. O doutorando, um português chamado Bruno, que eu conheci logo nos primeiros dias que cheguei, recebeu o título de doutor pelas duas universidades.
Aqui na Espanha, o orientador não participa da banca. Fica sentado na platéia. Há na banca um "Presidente", que é também um professor arguidor, geralmente o mais "bam-bam-bam" entre os presentes. São seis professores e todos perguntam na sequencia, cabendo ao candidato "defender-se" no final de todas as perguntas. Ontem havia dois professores da PUC. Foi legal.
Ah, além disso, uma coisa interessante (ou não). Aqui na Espanha, encerrada a arguição, qualquer professor-doutor presente na platéia pode fazer um breve comentário sobre o trabalho. 
O mais curioso, entretanto, foi a minha participação inesperada na defesa. Um dos docentes que estaria na banca não foi e a ata em português, a da PUC-SP, teria de ser redigitada. O orientador ficou meio tenso, houve um clima de "e agora o que fazemos?", até que lembraram-se de mim e... Adivinhem a quem coube a tarefa de redigitar a ata de defesa em "língua materna"?... Ao bolsista brasileiro que estava lá "dando sopa"...
Digitei tudo, "bonzinho que sou" (realmente não me molestou fazê-lo), ganhei agradecimentos ao estilo "salvou a pátria" e a mãe do doutorando, uma doninha portuguesa simpática, me lascou um beijo na bochecha e me deu um abraço... Diz ela que não sabia como me agradecer... queria me convidar para o almoço em família, para ir a Portugal etc... Eu agradeci, saí de fininho e pensei em uma frase clichê, como as muitas que me perseguem: "estaria eu ontem no 'lugar certo' e na 'hora certa'?"...
Enfim, mãe e "bolsista faz-tudo" são "espécies", eu diria, quase universais. Tudo igual...

outubro 13, 2009

las cabezas pensativas


Autumnal 
(Ruben Darío)

En las pálidas tardes
yerran nubes tranquilas
en el azul; en las ardientes manos
se posan las cabezas pensativas.
¡Ah los suspiros! ¡Ah los dulces sueños!
¡Ah las tristezas íntimas!
¡Ah el polvo de oro que en el aire flota,
tras cuyas ondas trémulas se miran
los ojos tiernos y húmedos,
las bocas inundadas de sonrisas,
las crespas cabelleras
y los dedos de rosa que acarician!

En las pálidas tardes
me cuenta un hada amiga
las historias secretas
llenas de poesía;
lo que cantan los pájaros,
lo que llevan las brisas,
lo que vaga en las nieblas,
lo que sueñan las niñas.

Una vez sentí el ansia
de una sed infinita.
Dije al hada amorosa:
Quiero en el alma mía
tener la aspiración honda, profunda,
inmensa: luz, calor, aroma, vida.
Ella me dijo: “¡Ven!” Con el acento
con que hablaría un arpa. En él había
un divino aroma de esperanza.
¡Oh sed del ideal!
Sobre la cima
de un monte, a medianoche,
me mostró las estrellas encendidas.
Era un jardín de oro
con pétalos de llama que titilan.
Exclamé: Más…
La aurora
vino después. La aurora sonreía,
con la luz en la frente,
como la joven tímida
que abre la reja, y la sorprenden luego
ciertas curiosas, mágicas pupilas.
Y dije: Más… Sonriendo
la celeste hada amiga
prorrumpió: ¡Y bien! ¡Las flores!
Y las flores
estaban frescas, lindas,
empapadas de olor: la rosa virgen,
la blanca margarita,
la azucena gentil y las volúbiles
que cuelgan de la rama estremecida.
Y dije: Más…
El viento
arrastraba rumores, ecos, risas,
murmullos misteriosos, aleteos,
músicas nunca oídas.

El hada entonces me llevó hasta el velo
que nos cubre las ansias infinitas,
la inspiración profunda
y el alma de las liras.
Y los rasgó. Allí todo era aurora.
En el fondo se vía
un bello rostro de mujer.
¡Oh; nunca,
Piérides, diréis las sacras dichas
que en el alma sintiera!
Con su vaga sonrisa:
¿Más?… dijo el hada.
Y yo tenía entonces
clavadas las pupilas
en el azul; y en mis ardientes manos
se posó mi cabeza pensativa…

por qué

"Se quedó luego mirando fijamente la superficie negra y brillante del río. Probó de nuevo a recordar el nombre de éste, pero tampoco esta vez lo consiguió. Hincó las manos en la tierra fría, que la humedad de la orilla mullía. Topó con un cristal de botella, cortante residuo de alguna fiesta nocturna. Se lo clavó en la mano pero no sintió dolor, quizá ni se dio cuenta. Luego empezó a girarlo y hundirlo más en la carne, sin apartar la mirada del agua; esperaba que Michela emergiera de pronto a la superficie y al mismo tiempo se preguntaba por qué unas cosas flotan y otras no".


outubro 12, 2009

El Rastro

Domingo pela manhã. Visita al "Rastro".


Do quarteto ao dueto

Posso dizer que os meus primeiros meses aqui foram de rua. Preferi estar em Madrid ao ar livre. Respirar a cidade e ver, invísivel (ou não...), tudo o que estava à minha volta. Foi uma ótima experiência. Eu era um quarteto: Fred, um livro de literatura, um iPod e um caderno de anotações.
"Brincava" de olhar, escutar, ler, escrever. Tudo junto. Ao mesmo tempo. Nessa ordem, ordem inversa. Não importa. Ações e instrumentos (ou seriam ferramentas?) de uma quase pesquisa de campo sem método, guiada pelo guiar. Talvez por isso tenha chegado (ou tentado ir) a lugares que eu não imaginaria. Lugares de sensações...
Essa semana comecei, de verdade, a habitar outros espaços.
Foi a primeria semana dos museus. E também de visitas internas aos monumentos. De muitos ao mesmo tempo e em poucos dias. Munido de boa companhia, a dois, conheci outras coisas da cidade.
Novas brincadeiras.














Interior do Palácio Real


Museu do Traje


"Guernica" (Pablo Picasso) - Museo Reina Sofia

Otoño

Hoje andávamos pela rua e ela disse: "outono". Era uma folha de árvore, já amarelinha, que caíra naquele momento aos nossos pés. Madrid, aos poucos, vai ficando com cara de nova estação. Cambios.

O caderno pop...

Ayer, mientras me desplazaba por el metro, dos chicos han entrado en el tren con sus guitarras y empezaran a cantar una canción. Más una "perla" que ha invadido mis oídos y mi cuaderno en Madrid... ¡Que disfruten ustedes!

outubro 07, 2009

regalo

Ganhei um bonito disco hoje, presenteado com muito carinho. Carinho que veio junto do Brasil e que aqui agora está. Veio cheio de músicas que eu não conhecia e de letras que "trombam" com os meus caminhos. Ganhei flores. Mais uma trilha a ser vivida. Eu recomendo.



Bela Flor
Composição: Maria Gadú

A Flor que vem me lembrar
A Flor que é quase igual
A Flor que muito pensa
A Flor que fecha o Sol

Parece a mesma flor
Só muda o coração
Quando se unem são
A Flor que inspirou a canção

Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio

Que dance a linda flor girando por aí
Sonhando com amor sem dor, amor de flor
Querendo a flor que é, no sonho a flor que vem
Ser duplamente flor, encanta colore e faz bem

Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio

Oh flor, se tu canta essa canção
Todo o meu medo se vai pro vão
Pra longe, longe que eu não quero ir
Mas deixe seu rastro pólen, flor pra eu poder seguir

Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio

outubro 06, 2009

Ser e estar

No Brasil ainda estou, na Espanha já sou. Lá são 28. Aqui já estão 29. Horas a mais, mais que minutos. Fredericos.

outubro 04, 2009

Solo con el sol

Primeiro final de semana de outubro. Nós dois. Somente e a sós. Despedida como cumprimento. ¡Encantado!



Palácio Real, pôr-do-sol, 03 de outubro de 2009


Parque del Retiro, pôr-do-sol, 04 de outubro de 2009



outubro 02, 2009

Ainda Portugal

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...

É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos..."

Fernando Pessoa

¡No tengo culpa!

Hoje almocei com a Belén, minha anfitriã na URJC, uma doutoranda "muy maja", a quem já devo muito por aqui. Depois de comermos, convidei-a para um café. E conversa vai, conversa vem, emendamos uma falação musical pra lá de eclética...
Como sou muito legal, compartilho aqui algumas pérolas que vieram de encontro à minha veia mega-hiper-ultra-pop.
(p.s.: a Belén se surpreendeu com mis conocimientos de la musica pop en castellano...)

Flamenkito:





Reggaeton (uma espécie de funk em espanhol, muito consumido no México):





Trash do trash:





Y un clássico de mis noches madrileñas:

outubro 01, 2009

Este mês começou ontem


Outubro é outubro. Muito significado.
E 2009 é meu ano 30, que prepara os 30 anos em 2010.

POEMA DE OUTUBRO

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã

Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.

Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.

Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio no bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que humedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas. Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário ia adiante mas o tempo girava em derredor.

Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela.

E pelos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo na água e nos pássaros canoros.

E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.

Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.

É isso, mas ao contrário, entendeu?


Vem bem, meu bem.