novembro 30, 2009

dezembro

Como diz meu tio, Zé Guerra, lá em Juiz de Fora: "Amanhã é hoje"...
Que venha dezembro e seus novos dias...

novembro 29, 2009

insone

Estou indo dormir, sem sono. Vou deitar na cama morrendo de frio. Isso sim. Pouco sono, muito frio. Hoje choveu cedo em Madrid e depois gelou o clima. Média de nove graus. Diferente dos 41 de agosto. Na conta, 32 graus a menos...
Quando tenho insônia recorro ao iPod. Música no ouvido para ver se Morfeu me encontra, por aí, perdido.
Na trilha de hoje, escolhi duas músicas. Restos do dia que se foi. Trilha para quem fica e para quem vai durante a semana que se inicia.



novembro 25, 2009

plano cartesiano

Para as linhas do gráfico que representa a minha passagem investigativa por aqui, um complemento que não sei se parte das abcissas ou das ordenadas. De qualquer forma, é eixo.

"A única atitude intelectual digna de uma criatura superior é a de uma calma e fria compaixão por tudo quanto não é ele próprio. Não que essa atitude tenha o mínimo cunho de justa e verdadeira; mas é tão invejável que é preciso tê-la". (Fernando Pessoa)

fred pop

Direto do túnel do tempo, vagando nas ondas sonoras de uma rua de Madrid hoje a tarde... Meus ouvidos, como sempre, continuam bem atentos.



E por falar em música, a dica da semana é a Cadena Dial, uma espécie de "BH Fm" de Madrid... hehehe


novembro 24, 2009

do que não sei, sei em português

"Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção" (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

p.s: outro dia (mais uma vez) vi numa livraria aqui em Madrid a versão em espanhol. Só pensei numa coisa: felizes os que têm o português como idioma...

novembro 23, 2009

consejo

Escutei hoje: Urbana Fanzine. Lançamento dessa banda que eu tanto gosto e que é trilha dos meus últimos anos longe de Minas.

palavras

Os ditos que estão nesse blog são e não são meus. Pois se as palavras são minhas ou reescritas por mim, depois de aqui postas também deixam de ser. A elas eu autorizo vida própria, com interpretações alheias. Sei disso.
Hoje, num intervalo de trabalho, li um poema. Explica a vontade de colocar "no papel" alguma coisa que vem. Escrever para apanhar o que surge. Palpável ou não. Depois disso, consequências leitoras.
 
Forma
Eucanaã Ferraz

Palavras, arrumá-las
de tal jeito
– cilada –
que se possa
apanhar com elas
um sentimento que passa.

novembro 21, 2009

entendimento

Hoje teve festa lá no Brasil. Aniversário de 90 anos da minha avó. Família toda reunida. Pensei o dia inteiro nas pessoas, nos tios, tias, primos, primas, pai, mãe, irmã. Na "parentada". Eu aqui, refletindo mal sobre os meus ainda não 30 e ela lá, com três vezes mais que eu. E "sem pensar". Faz bem. Vivida, alegre, saudável, bem-humorada, disposta. Vovó Zezé.
Quero chegar às minhas nove décadas. E chegar assim. Rodeado de gente. Sendo, eu mesmo, motivo de encontros, de partilha, de comemoração. Quero chegar lá com a lucidez e com os olhos da minha avó. Que, além de enxergarem muito bem, sempre olharam o mundo com simplicidade e pureza. Foco em lentes de felicidade e sabedoria comum.
O meu presente foi um texto. Que enviei para ser impresso lá. Antes, fiquei em dúvida sobre o que escrever. Minha mãe me dizendo ao telefone: "lembre-se da sua leitora. Não escreva palavras difíceis". "Sim, eu sei", concordava. Mas quando sentei para redigir, as palavras vieram. Com linguagem de sinceridade. Os melhores dizeres. No fim, em vez de parabéns, eu disse "obrigado".
Toda vez que conversamos ao telefone, mesmo que poucas vezes, minha vó diz que "me entregou pra 'Nossa Senhora'". E eu nunca esqueço. Pois mais que fé, isso é amor.
Na última frase da carta pra ela, eu escrevi: "uma das belezas da sua idade, para mim, está no 'bonito que é' ser seu neto". 
Acho que ela entendeu. Nossa rápida conversa hoje cedo foi também bem bonita.

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novembro 19, 2009

comentário

Na primeira reunião de orientação aqui na Espanha, eu presenteei minha orientadora com dois "regalos". Um "profissional" (um livro) e outro "de amigo" (um CD*). Outro dia, após longa data, ela comentou comigo do disco. Assim, meio do nada. Disse que não conhecia, que não era o tipo de música que ela escutava, mas que todo o CD é muito intenso. Que eu tinha bom gosto, pela "força" das canções. Intensidade me persegue, tão vendo?



* o CD: "Dentro do Mar tem Rio" (Maria Bethânia - Ao Vivo)
p.s.: da Bethânia, nem todos gostam; do Álvaro de Campos (em Pessoa...), talvez.

novembro 18, 2009

linguajar

Uma coisa interessante da experiência de falar outra língua diz respeito ao uso das interjeições, onomatopéias, coisas do tipo. Eu, um mineiro de belzonte que nos últimos dois anos incorporou palavriados catarinenses, paraenses, gaúchos, cearenses, maranhenses, fico às vezes meio órfão do português. Há dias em que tenho vontade de dizer "Bah!", em outros "Uai", "Égua", "Entendesse?" etc. Só que não consigo traduzí-los no linguajar castellano. Impossível. De vez em quando solto um "aqui" pra começar uma pergunta, ou um "ai, perdona"... Ganho com isso umas "miradas" de não-estou-entendendo...
Ontem, passando por debaixo de uma das muitas marquises em reforma aqui em Madrid, um super-ultra-mega-pingo-d'àgua-suja me escolheu. Sorte grande da minha blusa recém saída da máquina de lavar. E não teve jeito: soltei, naturalmente, um "Égua" bem estralado. Estava só. Ri comigo mesmo.

traído pelo objeto

Se eu fosse só leitor e não investigador, certamente minha vida seria bem mais simples. O PauloB adorou a frase.

novembro 17, 2009

indeciso

Eu, libriano nato, ando sempre tentando colocar as coisas na balança. Por isso, o conflito e a dúvida me perseguem. Ser justo comigo mesmo e com os outros desde mim. Difícil. Às vezes, sofrível. Muitas outras, repreensível. Mas, diz a Cecília:

Ou isto ou aquilo
Cecília Meireles 

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

repetição matutina

Desde a semana passada, voltei a ser acometido por sensações estranhas e contrárias pela manhã. Sono, cansaço, ansiedade. Acordo cedo, mas querendo ficar na cama. Quando cheguei aqui, isso também ocorreu. Depois, aos poucos, passou. Agora, acho, com a proximidade do final do ano, está voltando, um pouco.
Sempre gostei muito do final do ano. Das festas, da presença familiar, dos amigos. Este ano, tudo isso será diferente. Recheado pelas novidades do deslocamento geográfico, mas com um certo aperto lá do lado esquerdo do peito. Será especial, claro. Mas será diferente.
Se eu estivesse no Brasil, diria aos amigos: "não me liguem pela manhã". Seguramente, dada a minha emocionalidade, a conversa poderia rumar para uma lacrimosidade involuntária...
Só que durante muitas vezes aqui, eu quis amanhecer com o telefone nas mãos. Para ligar, falar, contar, desabafar. O email tem seus limites...
Na experiência de viver fora, há um contar que é o genérico. Só que há "contares" que são específicos. E esses, pela distância e incomunicações, você acaba tendo que guardar para si. Uma opinião não trocada, a revelação de uma lembrança partilhada.
Creio que minha "síndrome matutina" possa ser explicada um pouco por isso. Por ausências e retenções do dia anterior que eu superei ao longo do dia, mas que depois de uma noite (bem ou mal) dormida, batem à porta do ser.
O meu corpo anda propondo: final de ano é repetição; não é só fim ou começo. Que traga logo, de novo, seu lado bom.

novembro 15, 2009

recordar pelas mãos

Hoje almocei na casa do Bruno. Vinho e bacalhau. Vindos lá da sua terra natal. O Bruno é o português de quem transcrevi a ata de defesa de doutorado, num episódio que relatei mês passado aqui no blog.
O almoço, além da boa comida, teve bom papo. Estávamos eu, Belén, ele e seu companheiro de piso (o Rubén, un galelo). Em um dos momentos de "seriedade", começamos a falar de poesia, literatura. E então eles me "enseñaran" sobre "La Generación del 27", um marco literário aqui na Espanha.

Abaixo, um poema do poeta Pedro Salinas, expoente dessa geração, que me ha gustado mucho.

LA MEMORIA EN LAS MANOS

Hoy son las manos la memoria.
El alma no se acuerda, está dolida
de tanto recordar. Pero en las manos
queda el recuerdo de lo que han tenido.
Recuerdo de una piedra
que hubo junto a un arroyo
y que cogimos distraídamente
sin darnos cuenta de nuestra ventura.
Pero su peso áspero,
sentir nos hace que por fin cogimos
el fruto más hermoso de los tiempos.
A tiempo sabe
el peso de una piedra entre las manos. 
En una piedra está
la paciencia del mundo, madurada despacio.
Incalculable suma
de días y de noches, sol y agua
la que costó esta forma torpe y dura
que acariciar no sabe y acompaña
tan sólo con su peso, oscuramente.
Se estuvo siempre quieta,
sin buscar, encerrada,
en una voluntad densa y constante
de no volar como la mariposa,
de no ser bella, como el lirio,
para salvar de envidias su pureza.
¡Cuántos esbeltos lirios, cuántas gráciles
libélulas se han muerto, allí, a su lado
por correr tanto hacia la primavera!
Ella supo esperar sin pedir nada
más que la eternidad de su ser puro.
Por renunciar al pétalo, y al vuelo,
está viva y me enseña
que un amor debe estarse quizá quieto, muy quieto,
soltar las falsas alas de la prisa,
y derrotar así su propia muerte.
También recuerdan ellas, mis manos,
haber tenido una cabeza amada entre sus palmas.
Nada más misterioso en este mundo.
Los dedos reconocen los cabellos
lentamente, uno a uno, como hojas
de calendario: son recuerdos
de otros tantos, también innumerables
días felices
dóciles al amor que los revive.
Pero al palpar la forma inexorable
que detrás de la carne nos resiste
las palmas ya se quedan ciegas.
No son caricias, no, lo que repiten
pasando y repasando sobre el hueso:
son preguntas sin fin, son infinitas
angustias hechas tactos ardorosos.
Y nada les contesta: una sospecha
de que todo se escapa y se nos huye
cuando entre nuestras manos lo oprimimos
nos sube del calor de aquella frente.
La cabeza se entrega. ¿Es la entrega absoluta?
El peso en nuestras manos lo insinúa,
los dedos se lo creen,
y quieren convencerse: palpan, palpan.
Pero una voz oscura tras la frente,
—¿nuestra frente o la suya?—
nos dice que el misterio más lejano,
porque está allí tan cerca, no se toca
con la carne mortal con que buscamos
allí, en la punta de los dedos,
la presencia invisible.
Teniendo una cabeza así cogida
nada se sabe, nada,
sino que está el futuro decidiendo
o nuestra vida o nuestra muerte
tras esas pobres manos engañadas
por la hermosura de lo que sostienen.
Entre unas manos ciegas
que no pueden saber. Cuya fe única
está en ser buenas, en hacer caricias
sin casarse, por ver si así se ganan
cuando ya la cabeza amada vuelva
a vivir otra vez sobre sus hombros,
 y parezca que nada les queda entre las palmas,
el triunfo de no estar nunca vacías.

novembro 13, 2009

voar dentro


"Necesito como el aire que respiro sentirme conmovido, amar y admirar. La carta de un amigo, un cuadro de Balthus en una postal, una página de Saint-Simon confieren sentido al lento desgranar de las horas. No obstante, para sentirme vivo y no abismarme en una tibia resignación, conservo una sana dosis de rabia, de mal carácter, ni demasiado ni demasiado poco, al igual que la olla exprés [panela de pressão] dispone de una válvula de seguridad que le impide explotar".

Trecho do livro "La escafandra y la mariposa", de Jean-Dominique Bauby. Uma boa obra para pensar, digamos, na gente mesmo (estou terminando a leitura).

Abaixo, um trecho do filme de roteiro adaptado, o trailer e a música tema. Eu recomendo (vi lá em Porto Alegre...).





novembro 12, 2009

autor especulativo

"Existe um critério quase infalível para determinar se um homem é realmente teu amigo: o modo como refere opiniões hostis ou descorteses a teu respeito" (Theodor Adorno).

más canciones

Me han enseñado esta semana: Estopa.
Em homenagem ao "apagão" do Brasil, um "Apagón" en español:

novembro 10, 2009

Portadas



Para quem quiser brincar de jornalista na España, un consejo sencillo: El País Semanal.
Ah, e as minhas brincadeiras, claro: Toledo y Madrid.



subidón

Según Belén, mi compañera de investigación y despacho (dónde estamos ahora en este momento), "subidón" es una expresión que se utiliza cuando se alegra el alma y se encuentra fuerza para seguir con alguna cosa. Si estás de "bajón" (triste), hay veces que necesitas algo para moverte de impulso. Pues esto es un "subidón".
Una canción es una buena manera de buscarlo. O, otro ejemplo, sacar una notaza (un diez); esto también te da "subidón".
p.d.: nosotros, en el momento de esta explicación, escuchábamos "Ella" de la cantante "Bebe", y Belén cantaba y casi bailaba, enseñandome la canción que se oía desde la radio. Es muy maja mi amiga española...

luxo

Hoje o meu pai me mandou um email. Foi um email do login "capril-jacome", que eu criei há um tempo para as coisas do sítio. Na mensagem, uma foto lá de Contagem. E um textinho breve no qual meu pai se referia a um novo "morador", "um novo campeão", pelo qual ele estava "babando". Foi isso. Tudo isso. Muito.
Fiquei minutos lendo aquelas palavras e analisando a fotografia. Mais que a novidade em si, o gesto do email me pegou. Me abraçou. Me transportou longe. Obrigado.
Ao ver meu pai com sua nova aquisição, consegui imaginar sua roupa delgada (não herdei a sempre magreza do sr. Zé Osvaldo) à noite, amarrotada no banheiro e com odor de sitio. Desde pequeno tenho essa imagem. Botas, calça suja, blusa amassada e o cheiro das cabras, dos bichos, nessa roupa pendurada no banheiro amarelo, à direita, no corredor da casa.
Consegui enxergar todos os movimentos e elementos que estavam na foto. Consegui sentir o calor, a grama, os ruidos e minha mãe, ao fundo, dizendo algo para dirigir a fotografia, alegre que só. Vi o entusiasmo do meu pai com seu novo xodó...
Outro dia eu disse: "você pensa de vez em quando que há um oceano que nos separa de casa?". Ela respondeu que sim. E pensamos juntos: "só que uma vez aqui, o Brasil parece mais perto da Europa do que a Europa do Brasil". É um pouco da vontade intermitente de estar lá, acho. Coisas do sentir.
A imagem que veio me lembrou um poema da mineira Adélia Prado (esses mineiros...). Creio que ambos, minha leitura da foto e os dizeres da Adélia, caem como uma luva para o que há no sanduíche de doutorado e além dele. No meu, pelo menos. Estudo e coração.

Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo. 

novembro 09, 2009

soidade

A gente aprende por aí que saudade é uma palavra portuguesa. Exclusividade. Pois essa semana, após um episódio lá na Universidade, a minha amiga Belén me ensinou uma outra palavra: "morriña". É galela, mas com o mesmo sentimento saudoso.

"A morriña, ou nostalxia, é un sentimento ou estado de ánimo melancólico, causado pola ausencia dalgún ben querido. Aínda que se trata dun sentimento común a tódolos seres humanos, para os/as galegos/as é, en certo modo, un selo de identidade, provocado pola longa historia de emigración deste pobo. A morriña é a soidade da terra natal, un equivalente do mal du pays na lingua francesa".
(Fonte: Galizionario)

novembro 08, 2009

09 de novembro de 2009

Hoje eu quis buscar um texto que falasse por mim. Como os muitos que tenho buscado e a partir dos quais tento alimentar este blog. Para falar das minhas experiências no exterior desde um ponto de vista interior. Para não apenas contar o que ando vendo e vivenciando. Mas também – e principalmente – o que ando sentindo. Experienciando...
Passados três meses aqui na Espanha (completados neste dia nove de novembro), posso elaborar as mais diversas formas para descrever este período-de-eu-comigo-aqui. Creio que seriam muitos os textos. E muitos os endereçamentos.
Haveria textos para pessoas específicas. Com frases específicas. Com um contar acompanhado de um “como contar”. Para muitas diria de um jeito, para outras, de outro. Para uma, de uma só maneira. Para duas, três, também o faria de forma distinta.
Entretanto, em resumo, o que posso dizer a todos é que estou bem. Posso gritar (talvez) que tudo está valendo a pena. Que há muita coisa do aqui que há no lá (longe), que a cada dia aprendo a separar. Posso dizer que o tempo aqui é regressivo e não posso perdê-lo. Posso falar que o que cabe a este lugar deve ser entendido a partir dele. Posso dizer que é isso o que tento todos os dias fazer.
Sei que dizer essas coisas pode parecer um esboço de vontade de tornar “difícil” o “fácil” que é ter um privilégio. Alguns pensariam... Eu penso... Também.
E por pensar (demais), me pego a crer que pareço, na verdade, querer incrementar essas loucuras que a gente provoca na gente. Mesmo descobrindo, concomitantemente, que são as loucuras que nos provocam, do nada.
Estar distante e optar pelo escrever é escolher um quem que expõe, por quandos e ondes, aquilo que o compõe e que também o aguarda, sempre, para alguns porquês.
Este hoje de hoje, por isso, no juntar das coisas, é o presente mais transitório de todos os que já vivi. E, por isso mesmo, intenso. E, por isso mesmo, marcante. E, por isso mesmo, pra sempre.
Nestes noves de dois mil e nove, ao alcançar o terceiro, já sei que estou pronto para o quarto. Há muito a acontecer até lá. E espero alcançar, desde mim, este muito. Pois muito sou se só – e somente só – eu quiser.
Hoje eu quis buscar um texto que falasse por mim. Achei o meu.

Toledo, 8 de novembro de 2009

Antes de vir, todo mundo disse: "Não deixe de ir a Toledo". Não deixei de ir.


novembro 07, 2009

Los años maravillosos

Uma amiga espanhola me disse essa semana que vai conseguir os originais da minha série de TV favorita, a única que eu realmente assisti por completo.
Antes disso, já fui buscar uns aperitivos do começo e do (quase) final. Ambos dão dicas desse "favoritismo" e me "llenan" de pensamentos...
(estar à beira dos 30 nos faz nostálgicos e prontos para repetições de sentir).

"[...] there were moments that made us cry with laughter. and there were moments, like that one, of sorrow and wonder".



"Once upon a time there was a girl I knew, who lived across the street. Brown hair, brown eyes. When she smiled, I smiled. When she cried, I cried. Every single thing that ever happened to me that mattered, in some way had to do with her. That day Winnie and I promised each other that no matter what, that we’d always be together. It was a promise full of passion and truth and wisdom. It was the kind of promise that can only come from the hearts of the very young".

se não sabe o que de novo ler, recorde novamente o que leu

"Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas pôr regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor, — quanta saudade… — ; aí, outra esperança já vem… Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro pôr tino".
(João Guimarães Rosa)

novembro 06, 2009

Fagner español

saber

Não queira o que eu não posso te dar.
Isso em mim não está.
Mas eu sei.
Sempre dei motivos para você agir assim,
à força.
Por isso sou fraco.
(FMBT)

novembro 05, 2009

eu: cada dia mais doido...

Eu sempre sonhei muito à noite. Sonho demais. Mas o que me ocorre no dia seguinte, na maioria das vezes, é apenas lembrar das imagens e quase nunca dos sons. Faço então o exercicio de buscar o que foi dito e tento organizar uma certa sequência. Não é sempre que obtenho êxito.
Agora cedo me passou o contrário. Uma frase foi a minha primeira lembrança onírica. Foi um sonho (cheio de sonhos dentro) em que eu respondia a uma pergunta muito comum de respondermos quando estamos acordados: "Que dia é hoje mesmo?". Depois (no café da manhã) me dei conta de que realmente haviam me questionado isso ontem e de que eu, curiosamente, antes disso, já tinha pensado em datas durante a minha quarta-feira.
Por isso, hoje, vou fazer o inverso. Em vez de buscar os sons, vou buscar as imagens. Já escolhi um CD para me auxiliar no processo deste dia 05. Estou saindo para a Universidade.

novembro 04, 2009

(in)compreensão feminina


Islas Canárias

Essa semana comecei a tradução para o espanhol de um texto que vou apresentar em um Congresso em dezembro, nas Ilhas Canárias. Uma coisa interessante deste processo é ter de pensar meus escritos em outra língua. Ao trabalhar com um vocabulário bem "menos vasto" que o do meu "academês" brasileiro, acabo me dando conta de que há muita coisa confusa no meu português e na minha pesquisa...

novembro 03, 2009

Love for a child

Quando se está realmente longe, além de descobrir que a maior distância não é espacial, você conhece, nas oscilações do sentir, várias faces da saudade. Saudade dos outros, dos lugares, dos momentos. Mas tem uma que "dói" bastante e que, quando aparece, resume tudo isso em uma coisa só: a saudade da gente mesmo.
Em pleno período de "retorno de saturno" (digo isso em homenagem às minhas amigas astrólogas), hoje escutei uma música que "me ha gustado mucho". Não sei se pela melodia ou se pela letra. Na verdade, creio que ambas dizem coisas legais. Mesmo que incompletas ou não totalmente refletidas no que penso. Enfim, eis um fragmento da trilha sonora que me acompanhou até o campus de Fuenlabrada: Jason Mraz - Love for a Child.

novembro 02, 2009

Dulces santos

Hoje também é dia de finados aqui na Espanha. E para essa data do ano, há a costume de se comer dois doces muito tradicionais: os huesos de santo y los buñuelos de viento. Experimentei ambos, claro.




novembro 01, 2009

F(r)ederico

Frederico na Espanha é Federico. Sem "r" no começo. Assim, no dia-a-dia, em vários momentos, saco o "r" do meu nome. Para apresentações rápidas, principalmente. Eu que ando tanto pensando em "mins", "eus", ainda ganhei essa duplicidade de presente. Ruim mesmo fica só o apelido. Fred é algo meio difícil por aqui. Mas resolvo bem a questão. Afinal, meu "apellido", na verdade, é "Tavares"... hehehe
Essa semana, ao responder ao "¿como te llamas?", ouvi: "¡Hombre, como García Lorca!"
Isso aí, como o poeta:

De otro modo
(Federico García Lorca)

La hoguera pone al campo de la tarde,
unas astas de ciervo enfurecido.
Todo el valle se tiende. Por sus lomos,
caracolea el vientecillo.

El aire cristaliza bajo el humo.
¿Ojo de gato triste y amarillo?
Yo en mis ojos, paseo por las ramas.
Las ramas se pasean por el río.

Llegan mis cosas esenciales.
Son estribillos de estribillos.
Entre los juncos y la baja tarde,
¡qué raro que me llame Federico!